Como Cássia Eller supera a distinção entre rock e MPB no seu Acústico MTV

O Acústico MTV de Cássia Eller é um tipo de delta, em que desaguam algumas das mais significativas correntes da música brasileira urbana – em especial da MPB e do rock. Essas duas linhas, inclusive, parecem encontrar nesse álbum uma síntese fecunda, um ponto de fuga em que se fundem e se refundam.

Podemos identificá-las já na escolha do repertório. Do lado da MPB, três momentos capitais são representados: sua origem no samba (“Vá Morar com o Diabo”, de Riachão), a linha mestra da bossa nova/MPB (“Partido Alto”, de Chico Buarque) e o tropicalismo (“Queremos Saber”, de Gil). A linhagem do rock, por sua vez, é ainda mais completa, com Mutantes, o BRock (duas canções de Cazuza e Frejat, duas do Legião Urbana e a colaboração de Nando Reis), o Manguebeat (“Quando a Maré Encher”) e, evidentemente, a própria Cássia Eller.

É a figura dela, aliás, quem de fato conjuga as duas linhas [1]. Por um lado, sua voz, sua postura e seu modo de encarnar as canções remetem à energia e ao espírito de contestação que o rock tem nos seus melhores momentos, recriado sempre com dificuldade pelo rock brasileiro (isso quando ele consegue).

Por outro lado, esse espírito vigoroso se harmoniza com os arranjos acústicos e a ênfase na percussão, traços mais associados à MPB e ao samba, respectivamente. Cássia Eller parece cantar de um lugar no tempo e no espaço em que nunca existiu Marcha contra a Guitarra Elétrica e muito menos tabu no rock contra outros ritmos brasileiros, pois lá a própria distinção rock e MPB não faz sentido.

Duas canções do álbum são eloquentes nesse sentido: “Malandragem” e “Partido Alto”. A primeira dispensa apresentações, já que pode ser ouvida a qualquer momento em qualquer rádio que se dedique à MPB, embora tenha sido escrita por Cazuza e Frejat para Angela Ro Ro em meio à ebulição do BRock nos anos 1980. A canção se tornou um standard de MPB, assim como o próprio Cazuza, o que comprova a intersecção, por vezes escamoteada, entre esses dois momentos da música brasileira urbana.

“Partido Alto” me parece um caso mais interessante. Nela, Cássia Eller se vale de um dos maiores ícones da MPB, mas lhe dá uma nova direção, mais pulsante, potente, palpitante. Se “Malandragem” mpbizava o rock, “Partido Alto” inverte o sentido da operação [2], sem que seja preciso, no entanto, eletrificar a MPB – a batida é sincopada, mas longe do samba original, e a canção ganha corpo e carne, evidentes nas modulações de voz e nas interjeições (“Se liga, hein!”) que Cássia Eller espalha pela sua interpretação.

Nesse sentido, é gritante o contraste da versão de Cássia com a interpretação, por exemplo, do MPB-4 – bem colada à tradição do samba – e com a de Caetano Veloso, no álbum ao vivo junto com Chico Buarque – uma versão que lembra um cortejo fúnebre, eletrificado, pontuado pela voz lancinante de Caetano. É só na versão acústica, de 2001, que a canção mantém, simultaneamente, seu balanço festivo, confiante na tal Divina Providência, e seu avesso ácido, prestes a explodir em revolta, evidentes no refrão:

Diz que deu, diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ô nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, ô nega?
Diz que Deus diz que dá
E se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega
Deus dará, Deus dará

Parece também haver um diálogo implícito entre “Malandragem” e “Partido Alto” a partir dessa ideia-chave para se discutir o Brasil no século XX – a malandragem [3]. A canção de Cazuza e Frejat faz que deseja uma malandragem idealizada (“Eu só peço a Deus um pouco de malandragem / Pois sou criança e não conheço a verdade / Eu sou poeta e não aprendi a amar”), evocada num tom entre a ingenuidade (“sou criança”) de uma prece e a altivez (“Eu sou poeta”) à moda do Romantismo. É um olhar cheio de frescor, confiante na condição de artista, mas limitado criticamente; compare-se com as camadas de ironia da letra de “Partido Alto”. Nesta, a malandragem se manifesta em sua absoluta ambivalência: toma a palavra e insinua uma revolta contra Deus e o mundo (literalmente), que transparece mesmo com as modificações impostas à letra pelo regime militar. As duas faces da malandragem, em cada canção, encontram uma síntese na voz potente de Cássia Eller, que é precisa na dosagem de ironia a “Malandragem” e energia a “Partido Alto”.

Assim, a cantora revitaliza ambas as linhagens. A MPB certamente se beneficia com um novo vigor, já um tanto esmaecido após os saltos sofisticantes de João Gilberto, de Tom Jobim, do próprio Chico e, mais próxima ao contexto do álbum de 2001, de Marisa Monte. O rock, por sua vez, parece finalmente deglutir a MPB, em vez de ter de mantê-la a uma distância irônica (a fase inicial dos Mutantes), ser deglutido por ela (a tradição do BRock presente no álbum) ou emulá-la com maior ou menor sucesso, como ocorreu em momentos do Bloco do Eu Sozinho, do Los Hermanos, lançado no mesmo ano que o Acústico MTV.

Ao menos desse ponto de vista, de uma fusão musical e performática, não me parece descabido colocar Cássia Eller como outro elo de uma corrente de mulheres revolucionárias na música brasileira, junto a Chiquinha Gonzaga, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso, Elza Soares e Rita Lee, entre outras. É uma pena que sua carreira tenha se interrompido tão cedo: como aponta Bruno Capelas ao comentar a discografia da cantora, o ecletismo de Cássia Eller poderia ter feito com que essa síntese tão original se espalhasse, contagiando ainda outros ritmos, outras tradições, outros universos. Fica para quando o segundo sol chegar.

NOTAS

[1] A imagem de duas linhas dentro de uma tradição artística, linhas essas quase independentes mas amarradas na obra de um mesmo autor, não é minha, e sim de Ricardo Piglia. Ela aparece no romance Respiração Artificial, em que um dos personagens – o alter-ego do autor, Emilio Renzi, se não me engano – a usa para se referir a Jorge Luis Borges e às tradições da literatura argentina oitocentista. De um lado, haveria a gauchesca, poesia típica de lá, representada pela obra-prima de José Hernández, El Gaucho Martín Fierro. De outro, a tradição das bibliotecas, de autores como Domingos F. Sarmiento, estadista e autor do Facundo, livro-mor dessa linhagem, não menos por vir com uma epígrafe em francês, citada erroneamente (segundo Piglia). Borges as conjugaria em sua obra: o maior exemplo é o conto “O Sul”, um clássico, estrelado por Juan Dahlmann – um leitor que sonha (ou não) morrer numa briga de facas no pampa.

[2] “MPBizar o rock” e seu inverso implícito, “rockizar a MPB”, são paráfrases de uma proposta de Walter Benjamin para se pensar a tradução, no seu famoso ensaio sobre o tema, “A tarefa do tradutor”. Para Benjamin, os tradutores alemães costumavam germanizar outras línguas, por exemplo o francês, quando na verdade a operação deveria ser o inverso: afrancesar o alemão. Nesse sentido, poderíamos ir além e dizer que Cássia Eller não só empregaria essa tática benjaminiana, como também promoveria nesse álbum, em relação a essas duas linhagens da música popular brasileira, uma espécie de tradução recíproca ou uma “bitradução simultânea”, termo que Paulo Leminski (certamente inspirado em Benjamin, provavelmente pela via do concretismo) usou para apresentar sua tradução de Malone Morre, de Samuel Beckett, vertido do inglês e do francês ao mesmo tempo.

[3] Discutir a malandragem e seu papel na cultura brasileira vai além do escopo desse texto breve, com um foco tão específico. No entanto, seria interessante adicionar o caso Cássia Eller e, particularmente, o da composição de Cazuza e Frejat à discussão mais ampla, que encontra em Chico Buarque e sua Ópera do Malandro um dos pontos capitais, assim como em canções dos Racionais MC’s. Valeria a pena mobilizar a “Dialética da Malandragem”, de Antonio Candido, as ressalvas de Roberto Schwarz a ela, a releitura dessas tradições do pensamento brasileiro feita por José Miguel Wisnik em Veneno Remédio e os apontamentos de João Cezar de Castro Rocha a respeito de uma “Dialética da Marginalidade”. Dependendo do fôlego, quem sabe não incluir uma discussão de Pornopopeia conforme lido por Mario Sergio Conti?

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